Apresentação

Por Alberto Tassinari

Sérgio Sister trabalha com afinidades. A dificuldade, que ele mesmo reconhece, de pôr lado a lado cores afastadas do espectro não deixa de ser intrigante. Se acontece, embora não seja muito comum, de empregar contrastes de cor, ele então os atenuará por uma aproximação de valores. Em geral, porém, Sérgio Sister usa cores próximas e não varia muito a escala de valores. Além disso, prefere as cores matizadas às cores puras, pois o matiz já reúne e aproxima o diverso. Mesmo seus vermelhos, amarelos e azuis não são puros, mas um tanto escurecidos ou leitosos. São também, de certo modo, matizes, pois puxam para o preto ou o para o branco.

Mas a questão permanece: como pode um pintor ver no contraste uma dificuldade intransponível? Todo pintor sabe que contrastes fáceis estão sempre à mão. Se o artista não os emprega é por um motivo que não é técnico, mas poético. Sua obra explora proximidades, vizinhanças. Isto vale para a cor, mas também para outros elementos de sua pintura. Seus quadros são habitados por uma grande variedade de tipos de pinceladas. Cuida, entretanto, para que as diferenças de direção, tônus e escala dessas não criem áreas dissociadas. Mas não é a homogeneidade aquilo que busca. Prefere mesmo contrastar do que homogeneizar, pois procura, ao contrário, o heterogêneo no semelhante. Tudo seria igual a tudo, seríamos todos uma só substância, não fosse a questão básica de que somos todos indivíduos, portanto todos semelhantes, mas, nessa semelhança, diferentes, por menor que seja a diferença. E é na menor diferença, parecem dizer suas obras, que está a grande diferença.



A singularidade de uma obra de Sérgio Sister não vem apenas das cores ou da fatura sutil que afeiçoa as diferenças, mas da luminosidade. E essa também não é homogênea. Suas obras vivem de acordo com o ambiente luminoso em que se encontram. A luz que refletem não apenas possibilita ver os matizes e os claros e escuros além da superfície do quadro, mas também o quanto se movimentam e tremulam aquém da tela. Não apenas mudam um ambiente, mas mantêm uma comunicação constante com seu entorno luminoso. Também as luzes, em Sérgio Sister, a configurada internamente à obra e a do ambiente, tecem conjuntamente pequenas diferenças.

Trabalhos que vivem da luz não são fáceis de fotografar. Realizada a fotografia, não serão fáceis de ambientar na página impressa. Há neste livro, assim, dois autores que em geral não recebem tanto destaque em outros. Sem as fotografias de Eduardo Ortega não teria sido possível realizá-lo. Também não haveria um livro sem o desenho e a experiência gráfica de Carlito Carvalhosa. Os dois, somados com os quatro autores dos textos – Rodrigo Naves, Lorenzo Mammì, o próprio Sérgio Sister e eu – fizeram do livro um trabalho a doze mãos. Com exceção desta breve apresentação, os demais textos não são inéditos. Estão editados no final do livro de maneira assemelhada às suas primeiras aparições em catálogos de exposição do artista.

Mais, ou menos, do que um livro, o que se tentou realizar foi uma espécie de álbum. As principais exposições de Sérgio Sister aqui estão recordadas por algumas obras e pelos textos que as acompanharam. Excetuada a separação das pinturas e dos desenhos, a ordem das ilustrações é basicamente cronológica. Mas não conta toda a história de uma obra que começou nos anos 60. O recorte feito, e que mostra sua trajetória apenas nos últimos quinze anos, encontra duas justificativas. Até meados da década de 80, Sérgio Sister não trabalhou de maneira regular. A política e o jornalismo absorviam grande parte de sua atenção. Com a democratização do país já quase completada, o artista retornou à arte com novas energias. Foi em parte pelo contato com artistas e críticos mais jovens que sua obra ganhou plenitude. Assemelhou-se assim, por momentos, mais ao trabalho desses artistas do que aos seus mais antigos. Mas com diferenças que ele nunca abandonou. Grandes diferenças. Sérgio Sister já era um artista maduro quando sua obra irrompeu, com o perdão da redundância, madura em meio a um grupo de artistas jovens que ainda buscavam seus caminhos. Basta, para constatá-lo, olhar a série de pequenas pinturas de 33 x 33 cm, uma das mais belas da pintura brasileira, que realizou desde o final dos anos 80. Ter-se deixado ambientar por um grupo mais novo do meio de arte é uma lição de vida. Ter mantido a mesma poética à época conquistada, uma lição de arte.









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