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Rodrigo Naves, Paradoxos da modernidade
01/01/1986

Poucos artistas têm tantas lições a oferecer à pintura contemporânea quanto Giorgio Morandi. Quando a modernidade, paradoxalmente, passa a viver num certo compasso de espera, e por uma questão de sobrevivência retoma problemas formulados anteriormente  distante, portanto, da tradição de rupturas do modernismo -, a decisão estética e a firmeza moral deste italiano aparentemente extemporâneo ganham uma dimensão insuspeitada em sua época.

Se os embates das vanguardas perdem eficácia, talvez a saída provisória mais adequada esteja em manter as tensões internas de uma cultura que não pode viver sem elas. É inútil bater-se contra um meio que não oferece resistência, e tem algo de ridículo lamentar a falta de agressividade do público.

A pintura de Sérgio Sister vive no âmbito desses dilemas. Seus quadros não trazem a preocupação de grandes transgressões formais. O que os caracteriza é, antes, um esforço para dificultar a expressão, para torná-la aderente ao trabalho despendido na realização das telas. De fato, elas têm uma presença problemática, distinta da evidência que vinha sendo uma das marcas da produção contemporânea. A tão discreta aparência das obras é rigorosamente proporcional a uma trama elaborada com a obsessão de quem não quer concluir. Ou melhor, não pode. Porque não se trata de dar corpo a uma idéia ou projeto que solicite uma presença sensível mínima para ser melhor captado. Ao contrário, há aí um excesso de trabalho para um resultado voluntariamente ínfimo em efeitos; uma destreza que se recusa à simples consecução e se interroga a cada movimento. Portanto, seria ingênuo reconhecer nelas um elogio do trabalho artesão ou algum vago protesto contra o caráter sumário da arte contemporânea.

Este fazer carrega uma inutilidade que nada tem a ver com o finalismo da manufatura. Não resta dúvida, estamos às voltas com uma estética peculiar: não propriamente desinteressada, mas sobretudo ciosa (e paciente) de suas origens e destinação. Como esses planos indecisos de sua direção ou profundidade, ou os pigmentos metálicos que mal se convertem em tinta, não interessa aqui a bela exterioridade dos atos, e sim a sua constituição. Omar Kháyám dizia que “não há verdades, mas há mentiras evidentes”. É mais ou menos isso.

* Texto publicado originalmente no catálogo da exposição de 1996 na Paulo Figueiredo Galeria de Arte

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