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Lorenzo Mammi, Pequenos deslocamentos de equilíbrios
01/01/1988

No centro do trabalho de Sérgio Sister está a análise atenta, acurada e paciente do elemento mais simples da linguagem pictórica: a pincelada. A tradição moderna vem fazendo da pincelada cada vez mais objeto e menos instrumento da pintura. A marca do pincel sobre a tela e sua reação à luz têm se tornado cada vez mais elementos estruturantes do quadro, e não simples meios de representar uma estrutura.

Nos quadros de Sister, a justaposição de diferentes pinceladas - desiguais quanto à direção, forma e pressão - parece gerar direta e organicamente a forma total, sem a mediação de um esquema pré-estabelecido. Nos grandes quadros monocromáticos, a luz recorta campos de diversos tons, graças unicamente à direção da pincelada; ou então dissolve a unidade da superfície em escamas luminosas, seguindo os movimentos curtos e nervosos do pincel. Nos quadros pequenos, Sister constrói morfologias locais, pontos de equilíbrio precário nos quais a luz, o gesto do pintor e a consistência do pigmento chegam a coexistir, por um momento, em um esboço de forma unitária.

Nestas pequenas telas, com mais freqüência que nas outras, ocorrem tentativas de estruturação mais marcadas. Uma faixa, uma moldura, um triângulo- sinais de um esprit de géometrie enxuto, reduzido ao mínimo, disposto a deixar-se submergir pela onda irregular da pincelada e de seus infinitos reflexos.

Para que o movimento das pinceladas adquira a máxima evidência possível, Sister utiliza um pigmento à base de pó de alumínio, misturado com óleos, ceras ou terras. Assim tratado, o pigmento mantém a cintilação metálica, porém enfraquecida - não um reflexo constante que repele o olhar, obrigando-o a deter-se na superfície do quadro, mas sim uma luminosidade vaga que convida a descobrir mais em profundidade outros reflexos, outros jogos de luz e sombra. O material empregado pelo artista parece realizar uma impossível conciliação de opostos: absorver e refletir a luz simultaneamente.

No entanto, justamente porque sublinhada ao máximo pelo brilho do metal, a marca do pincel se torna ambígua. O jogo de reflexos e sombras muda conforme a iluminação e a posição do observador. Os quadros passam a ser um pouco mais escultura e um pouco menos imagem - como as esculturas, admitem uma pluralidade de pontos de vista.

Sister escolheu um material que o coage a produzir signos - o simples ato de encostar repetidamente o pincel na tela produz manchas, linhas, campos de cor, enfim, formas. Essas formas, contudo, não são mais estáveis: sofrem contínuas modificações, surgem e desaparecem. Neste universo em transformação, o pintor procede com prudência, reconhecendo constantes, marcando passagens, sabendo que cada movimento seu não tem mais um sentido unívoco, não é mais que um pequeno deslocamento de equilíbrios em uma rede de imagens possíveis.

* Texto originalmente publicado em catálogo da exposição de 1988 na Galeria Millan

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