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Alberto Tassinari, A guarda da luz
01/01/1993

As pinturas de Sérgio Sister parecem guardar a luz. Opacas, às vezes leitosas, são pinturas, paradoxalmente, luminosas. Ainda que pintadas sempre com uma cor dominante, não é tanto da cor que nos falam, mas, se é possível dizer assim, de um repouso da luz. Ali retida, entre os sulcos e as vibrações que estruturam o quadro, a luz parece encontrar na cor mais o seu ambiente do que a sua tradução. A luz ali fica, mais do que ilumina.

É difícil dizer como isso se dá. Uma matéria emprestaria corpo a uma cor que se deixaria vir habitar pela luz. Estranha espécie de vitrais de um tempo sem catedrais. Quando nada mais transcende, a luz já não será o espírito do espaço. E mesmo o espaço já não é então transcendência em excesso? O máximo a fazer seria guardá-los. Quietos, mas não inertes. Imantados na pele dos quadros.

Mas esses quadros parecem solicitar também uma interpretação positiva. O que é o transcendente, hoje? Talvez questão sem muito lugar, que a conversa e os saberes desconversam e disciplinam a ponto de não haver muitas ocasiões para pô-la, a não ser, aqui e ali, em textos híbridos como o são os catálogos de exposições. Que, pelo menos, para regular a grandiloqüência, se faça então a pergunta às próprias obras. A princípio, não haveria nenhuma transcendência nelas. Seriam prosaicas e banais. Entretanto ali estão. Fechadas, opacas, pouco se entreabrem. Mas de novo ali estarão e, nesse ali, há um mistério. E que não se deixa perder, o quanto pode.

Mas isso tudo é muito geral. Esse ali que põe algo em obra é o de toda boa arte contemporânea. Nessas pinturas, como nos chega? Como luz, dizia-se. Uma luz que ali está. Mas isso também é muito geral. Há toda uma família de pinturas da luz. Menos há, é verdade, dessa guarda ou vigília da luz. Que acontece aqui, parece-me, por um trabalho da afeição. Há uma calma nessas pinturas que vem do afetuoso de seu feitio. A matéria, a cor e a luz de que antes se falou, estão ali afeiçoadas umas às outras. As marcas do fazer se deixam ver em tramas que se mostram tranqüilas, mesmo quando, não raro, são marcadas por fadigas. Há zelo por toda parte. O que não quer dizer minúcia. Se a luz habita o quadro, parece ser porque este mesmo é um espaço habitado por hábitos que logo discriminamos, mas que se mostram hábitos dele, que dão suas regras, mas também suas variações imprevistas. Mas se assim for, não há nisto uma contradição entre as impressões e noções do que aqui se pôs a falar? Esse ali, de todos e de ninguém, pode ter a fisionomia do afeto? Este último não é da ordem, digamos, do aqui, de que vê e de quem pinta? Haverá um afeiçoar-se lá, sempre mais lá do que nossos próprios afetos? É no que penso e sinto quando olho estas pinturas. Há uma luz ali. Ela encontrou lugar. Por momentos, não pensarei em outras coisas. Há beleza no mundo. Nada de mal acontecerá. Talvez comigo. Uma dia comigo, com todos. Mas não ali. Como numa pintura de Morandi, tudo se afeiçoa a tudo. Mas não é isto mesmo a arte, já se disse, promessas de felicidade?

* Texto originalmente publicado em catálogo da exposição de 1993 na Galeria Millan (SP) e Casa da Imagem (Curitiba).

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