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Rodrigo Naves, O fio perigoso das coisas
01/01/1995

É ainda possível pintar como quem resolve exclusivamente problemas de pintura? A essa pergunta, o trabalho de Sérgio Sister responde “sim” e “não”. O aspecto discreto e austero de suas telas, o envolvimento cerrado com questões eminentemente ligadas à própria pintura -- luz, direção das pinceladas, relações tonais -- e a recusa a qualquer comentário prosaico sem dúvida reforçam o comprometimento com uma estética altamente reflexiva, sempre às voltas com seus dilemas.

No entanto, essas obras a todo instante se apresentam ao nosso olhar de maneira mais desarmada, afastando temporariamente a interrogação sobre seu estatuto. O refinado e paciente trabalho de pincel se acumula aqui e ali, se mostra excessivo, incapaz de levar a cabo a tarefa de sutil formalização que o orienta. A relação ponderada entre pincelada e cor se atropela. A alegria dos tons claros é rebaixada pela trama grave que os envolve e eles parecem requerer independência frente à malha de pinceladas que os ordena sobre a tela. A luz que matiza as cores e as anima tarda em demasia sobre as superfícies e adia o aparecimento delas. Cor e luz atravessam o ritmo e duvidam de sua ação solidária.

É sobretudo nesses momentos de indefinição que os quadros aparecem mais intensamente. O instrumento que daria realidade e feição às coisas -- o apurado trabalho do pincel -- perde o fio da meada, passa do ponto e turva aquilo que queria conduzir à mais perfeita forma de apresentação. A indagação moderna sobre a verdade e a extensão dos meios pictóricos embatuca e já não consegue encontrar correspondência entre a objetividade de seus termos e a efetividade de seus desdobramentos. A maneira mais cuidadosa de revelar plenamente a intensidade de um vermelho também pode conduzi-lo a uma presença por demais massuda e pouco luminosa. A meditada construção de uma superfície azul traz sempre os riscos de uma tonalidade que reluta em se manifestar cabalmente, retornando sem cessar aos gestos que a originaram.

A existência de uma estrutura mais marcada nos quadros atuais é, por isso mesmo, muito reveladora. As áreas quase regulares que demarcam as telas procuram reencontrar uma unidade que se rompeu. De algum modo, elas retomam a busca por uma trama de relações razoavelmente auto-suficiente e que proporcione uma sistema generoso de permutações. Três superfícies diversas de verde podem então encontrar equivalência por meio de fatores que ampliam a determinação das cores. O modo específico de aparecimento de cada região colorida -- determinado pela trama que lhes dá corpo, sua maior expansão ou retraimento, sua espessura -- as envolve com circunstâncias que abrangem suas condições de existência. Os elementos constitutivos de uma pintura revelam então compromissos mais materiais, que os afastam da ilusão de um autonomia absoluta. A ênfase no trabalho concreto que viabiliza as diferentes áreas dos quadros possibilita um cotejo renovado entre elas, e de fato impressiona que pinturas tão discretas possam adquirir tanto movimento.

Mas aquilo que aproxima as diferentes regiões também as afasta. Uma má circularidade acentua ora o lado mais retiniano das cores, ora sua corporeidade. As coisas e sua realização não se recobrem. Na arte brasileira, poucas obras ressaltaram tanto a dimensão feita do fenômeno visual como a pintura de Sérgio Sister. E no entanto desde sempre esse fazer teve um movimento errante, minimamente conformador. A luz que transfigurava a matéria por entre as estrias do pincel precisava obter um deslizamento acentuado, que dificultava toda configuração mais estável. Nas telas negras da década de 80 era preciso rebaixar a aparência dos quadros a um grau zero para que seus termos começassem a atuar.

Sérgio Sister é sim um modernista meio enragé que insiste em ver a pintura como processo autônomo, avesso às contaminações da realidade e de suas limitações. Penso até que esse partido chegou a lhe dar uma segurança excessiva, que deteve por um tempo o desenvolvimento de sua pintura. Agora, a mesma ênfase nos elementos intrínsecos ao meio -- plano, cor, luz -- conduz seu trabalho em outra direção. A autonomia dos elementos -- a promessa de uma atividade que regulasse a si mesma -- é obtida por um trabalho e uma corporeidade que, pela sua própria natureza, relativizam aquela intenção. E, simultaneamente, a consideração das circunstâncias de realização das formas e cores garante a singularidade e força de sua pintura. E é sobretudo o cotejo das diversas regiões dos quadros que torna visível esse processo, quando um pequeno retângulo azul mais encorpado se mede em pé de igualdade com uma maior extensão da mesma cor. Há uns dez anos uma gestualidade contida e renitente mantinha a esperança de livrar luz e cor de seus compromissos mundanos, ainda que às custas justamente de luz e cor. As superfícies negras constituíam um território neutro onde tudo podia encontrar o seu início. Hoje, ao contrário, são suas impurezas que podem lhes assegurar particularidade.

O trabalho de Sérgio Sister permanece discreto como sempre. Essas telas não vieram ao mundo para torná-lo mais alegre ou variado. E nem mesmo o exercício continuado dessas sutilezas tonais promete um renovado poder de discriminação. Sua arte ensina que está tudo em jogo. O que diferencia envolve tudo numa espessura turva. E o que hoje traz as coisas à tona pode amanhã ser o peso que as levará ao fundo. (1995)

* Texto originalmente publicado em catálogo da exposição de 1995 na Galeria Millan

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