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Sérgio Sister, A hora de dispersar
01/01/1996

As pinturas desta exposição se apresentam com faixas verticais coloridas, em grande parte claras e luminosas, feitas geralmente com pinceladas marcadas. Trata-se de uma razoável mudança no trabalho que venho apresentando nos últimos 10 anos. Menos pelo jeito de pintar e pelas cores tomadas individualmente -- semelhantes às das últimas duas exposições (1993 e 1995) nas Galerias André Millan e Millan -- do que pela junção de cores diferentes em um mesmo espaço, antes ocupado apenas por uma cor.

Por que estou acrescentando outras cores no mesmo espaço? E mais do que isso: por que estou agora estruturando as cores através de faixas, quando isso já foi e ainda é bastante utilizado na pintura contemporânea por artistas por exemplo como Barnett Newman e Brice Marden e, entre nós, Eduardo Sued e Cassio Michalany?

Fui levado ao uso de outras cores, antes de mais nada, pela óbvia e inexplicável vontade de fazê-lo. Mas havia outros motivos, que foram se esclarecendo depois. De um lado, o desdobramento da minha pintura passou a se dar muito lentamente, carregando o risco improdutivo da repetição. De outro, vinha frequentemente a sensação de que estava faltando algum desafio novo.

As faixas verticais, por sua vez, surgiram como uma alternativa para a disposição de várias cores, sem perda de alguns traços básicos de meu trabalho. Elas permitem manter cada cor como um corpo próprio, o que não seria aqui possível com as horizontais por exemplo, já que apareceriam como uma alusão muito forte e rápida à paisagem. Com as faixas pude manter as características poéticas que prezo, de uma deliberada hesitação e de rejeição a estruturas fortes. O mais importante, porém, é que as faixas verticais me oferecem a possibilidade de transmitir diversos e diferenciados tempos no espaço da pintura: mais plana, a cor escorre ligeira e fugaz; pincelada, ela se detém; mais intensa, ela brilha e pulsa para a frente e para trás.

O centro do trabalho, de qualquer maneira, segundo me parece, não está nem na justaposição das cores, nem nas faixas verticais. Meu esforço se concentra, como antes já se concentrava, sobretudo na criação de uma luminosidade. Luminosidade feita de cores ao mesmo tempo encarnadas e algo etéreas, que se afirmam mas que parecem por vezes se vaporizar. É nessa tensão que os quadros se movem. Agora, contudo, isso se dá numa nova duração: em lugar de um tempo mais denso e mais moroso, procura-se o contraponto de diferentes tempos. Um grande amigo meu, acostumado a enxergar no escuro de negras madrugadas, diz que a luz que antes imantava cada cor, agora se reparte em diferentes lugares e tempos. E que já não busco mais com tanto empenho a hora de cada cor. De fato, passei a valorizar mais a dispersão, na qual se abre a possibilidades de se encontrarem, quem sabe, pequenas iluminações.

* Texto originalmente publicado em catálogo da exposição de 1996 na Marília Razuk Galeria de Arte.

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