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Rodrigo Naves, Sister: a pintura como passagem
01/01/2007

Texto para a Exposição Tomie Ohtake, 2007

Artista retoma o jogo entre superfície e tridimensionalidade, envolvendo as suas diversas soluções

A arte contemporânea e a pintura mantêm entre si uma relação tensa, e não por acaso nos últimos tempos tem-se decretado a morte da pintura de maneira realmente cansativa. As críticas a ela partem de pontos de vista diversos e não seria possível retomá-las todas aqui. No entanto, um dos argumentos mais eficazes - ao menos retoricamente - afirma que haveria na produção contemporânea uma tendência a romper os limites que a separariam da vida, dos demais objetos e situações, enquanto a pintura se manteria dentro dos limites da arte tradicional, ligados à superfície, a suportes diferenciados, ao artesanal e à relação contemplativa com o observador.

Essa discussão contém verdades e incompreensões e traz para o debate estímulos e preconceitos. Sérgio Sister, fundamentalmente um pintor, tem sabido estabelecer um diálogo proveitoso com essas questões, sem responder a elas com ressentimento ou com subserviência. Desde suas Ripas - realizadas a partir de 1998 e que alternavam superfícies de madeira pintada e vazios -, já se percebia a tentativa de incorporar o espaço tridimensional a seu trabalho. Vários outros pintores - o veterano Eduardo Sued, Fábio Miguez, Rodrigo Andrade, para citar alguns nomes - aceitaram com grandeza os desafios que se colocam à pintura, com resultados notáveis.

Não há nessa constatação um juízo de valor. Muitos artistas se mantiveram mais estritamente ligados a seu meio - no mesmo Instituto Tomie Ohtake em que estão os trabalhos de Sérgio Sister, Cristina Canale mostra pinturas de ótimo nível -, obtendo excelentes resultados. Afinal, a realidade sempre terá superfícies e cabe à pintura problematizá-las. Neste momento de transição nas artes visuais, a melhor atitude está em deixar-se permear pelas discussões que se apresentam, sem perder de vista suas próprias indagações.

Sérgio Sister retoma com astúcia um antigo mote da pintura, o jogo entre superfície e tridimensionalidade, com suas diversas soluções. Não é novidade para ninguém que desde o Renascimento a pintura se deu como objetivo alcançar representações que simulassem a visão de aspectos da realidade, produzindo sobre superfícies a ilusão de um mundo tridimensional. Não foi por acaso que muitas vezes se usou a metáfora de uma janela para se referir aos quadros que se nortearam por esse ideal. Era como se víssemos através deles e não propriamente aquilo que traziam retratado sobre tecido ou madeira. Nesse sistema, as molduras fariam as vezes dos caixilhos da janela, um elemento a mais a assegurar a realização daquele objetivo.

Por certo, apenas alguém totalmente alheio a essa tradição, e diante de uma representação absolutamente ilusionista, seria capaz de confundir de fato pintura e realidade, a ponto de meter a cabeça numa tela. Mas se não aceitarmos o convite para essa aventura que conduz do plano à profundidade e vice-versa, não faremos a experiência da pintura, inclusive da pintura moderna, que procurou ao máximo reverter aquela tradição ilusionista. De certa maneira, um quadro sempre será um lugar de passagem e seu significado reside, em boa medida, no tipo de transição que nos propõe.

Sérgio Sister nos põe diretamente em contato com essa dimensão da pintura, a transposição de regiões diferentes e inesperadas. Contudo, é preciso caracterizar com alguma precisão esse movimento. Não se trata aí apenas de mais um exercício de desconstrução da pintura, como se tem feito às dúzias nas últimas décadas: manter somente as molduras da tradição e revelar, para além delas, o mundo real que a pintura teria procurado sempre em vão representar. Se seus trabalhos lembram molduras, lembram ainda mais outras balizas que fazem pensar em passagem e transição: pórticos, traves esportivas, batentes. O que interessa a esses trabalhos é justamente armar uma expectativa, a espera de transpor um limite.

E para que esse objetivo seja alcançado, as passagens de Sérgio Sister precisam ser mais que um simples limite empírico, marcos que delimitem claramente os lados de lá e de cá. Isso qualquer porta faz e por isso um objeto de arte, por mais que se aproxime dos demais objetos do mundo, deve manter com as coisas uma tensão difícil de nomear e que, no entanto, existe e se pode experimentar. Se a procura desses trabalhos fosse simplesmente delimitar o espaço, eles estariam colocados mais folgadamente na sala, e não apenas encostados às paredes, abrindo-se com pudor às três dimensões. O espaço é elemento integrante dessas obras. Mas de uma maneira altamente complexa e aí reside parte da grandeza dessas obras. Porque é justamente por um jogo extremamente hábil com as cores e com os barrotes de madeira que aquilo que seria apenas um lugar de passagem se transforma numa região problemática.

Para chegar às soluções apresentadas nessa mostra, Sérgio Sister soube tirar proveito de experiências artísticas muito sutis, tanto das suaves transições tonais de sua própria pintura quanto dos formidáveis Objetos Ativos de Willys de Castro. Os objetos de Willys - também realizados em ripas de madeira recobertas de tela - problematizavam as relações entre superfície e profundidade por sábios deslocamentos de cor que chegavam a pôr questão até nossa posição no espaço. Sérgio Sister transpôs as ambigüidades de Willys de Castro e de sua própria pintura para a estrutura mesma de suas obras, não mais constituídas de peças únicas, como as do artista neoconcreto, e sim da justaposição na horizontal e na vertical de sarrafos de madeira coloridos, na forma de pórticos.

À semelhança do que ocorre com os Objetos Ativos, a convivência entre superfícies de diferentes cores faz com que, tanto na vertical quanto na horizontal, não tenhamos a constituição de elementos unívocos e com força estrutural. À medida que nos movemos diante dessas peças, as sutis alternâncias de cor e de interações de cor parecem pôr em questão a própria solidez dos barrotes de madeira, que assim nunca chegam a construir estruturas verdadeiramente estáveis. E os ligeiros deslocamentos em alguns desses elementos tornam suas relações ainda mais instáveis.

A maneira pela qual formulamos uma questão já determina em grande parte a resposta que obteremos, porque já há na pergunta uma seleção dos termos que serão investigados.

Da mesma maneira, esses trabalhos de Sérgio Sister afirmam que as balizas com que delineamos a realidade terão um peso decisivo na natureza das passagens e transposições que procuramos. A própria separação do mundo em dimensões materiais e espirituais já traz em si o sentido de muitas mudanças, reais ou imaginadas. E as diferenciações sociais com que demarcamos a sociedade prefiguram as formas de convivência a que poderemos chegar. Sérgio Sister quer chamar a atenção para essas dimensões e por isso precisou elevar ao máximo a presença desses balizamentos, não por intensidade material e sim por sutilezas.

Não poderemos transpor esses pórticos. Em sua leveza e instabilidade, as obras de Sérgio Sister põem diante de nós um lugar de transição, um limiar que parece conter promessas de passagem a algo mais livre e poroso, disponível e liberador, embora ainda inexistente. Não se trata apenas de mover-se de um lugar a outro, como ocorre com portas ou arcos de triunfo, com tudo que trazem de familiar ou heróico. São frágeis demais para isso. O que elas prometem diz respeito à experiência de um risco, diante do qual é preciso conter a ansiedade. Todos que já tomaram decisões irreversíveis saberão reconhecer a força dessas obras.

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