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Paulo Venâncio Filho, Experiências da superfície
01/01/2008

Texto para a Exposição Nara Roesler em 2008

A superfície pictórica perturba a monocromia, a homogeneidade da fatura e a subjacente precisão geométrica das formas. Valores tão difíceis de revogar quanto transformar. O laboratório dessa pintura se volta então para uma experiência da superfície, agora intensificada e tomando um novo curso, mas que ocorre já de longa data. Tornar os elementos que afirma mais discretos ainda. Manobra negativa; a pintura busca chamar a atenção justamente por não procurar chamar a atenção. Nela combinam, com sutileza, esses dois momentos: discrição e atenção. Diante e desafiando todos os malabarismos imagéticos atuais propõe um ainda raro desfrute do prazer visual que é aqui tanto prosaico quanto refinado - os dois ao mesmo tempo. De tão desgastadas e desinteressantes; unidirecionais na sua busca constante do assédio a um olhar previamente anestesiado, entediado, passivo, as superfícies hoje procuram mais capturar do que transmitir e comunicar alguma coisa: as superfícies se tornaram superficiais.

Nesse contexto de saturação esvaziada da visualidade a pintura de Sergio Sister continua apostando naqueles valores cuja autoridade histórica parecem não se impor mais por si. Num curioso paralelismo, revelador de tal tendência, se pode constatar entre as pinturas de Sister e a dos figurativos atuais que, se apropriando da imagem fotográfica, procuram justamente embaçar a perfeita nitidez que a fotografia oferece. De ambas, pode-se dizer que buscam o mesmo registro intermédio, uma flutuação indefinida ao mesmo tempo descrente e uma tanto assediada por valores nítidos e afirmativos.

De uma tênue sensualidade intelectual – essas qualidades não se opõem umas às outras, mas dão uma medida refinada e equilibrada - as telas afirmam, creio, uma intenção de se dirigir ao espaço como o ambiente da vida; a vida que contém o olhar de todo dia. Por uma lado, são telas já não tão íntimas como foram - essa qualidade quase única da melhor pintura brasileira -, embora se expandam, sem conflito, em dimensões compatíveis com a atualidade. Alcançaram uma outra escala sem descartar daquele núcleo íntimo que permanece como uma força coesiva única. Esse é sem dúvida um desafio ainda presente e que se apresenta nessas telas; o salto para um outro patamar de sociabilidade, onde a intimidade se defronta com espaços inesperados e não familiares, e é isso, creio, que a pintura de Sister busca, dar esse espaço da proximidade uma nova abertura possível, mais ampla e franca.

Passa também por aí um processo de introjeção de certas marcas visuais contemporâneas que estimulam e desafiam a crença numa subjetividade solitária e culturalmente isolada: a inevitável permeabilidade moderna. Como não ver nos Pontaletes algo do Objeto Ativo de Willys de Castro e dos Sarrafos de Mira Schendel, procurando ir além, desapegando-se da dimensionalidade física da intimidade, fazendo frente, aqui me ocorre, às estruturas de lâmpadas fluorescentes de Dan Flavin, por exemplo.

Inescapável, não se pode deixar de mencionar, é então a relação temporal com a pintura norte-americana dita minimal, esta que procurou enfatizar os aspectos literais em detrimento dos metafóricos, expressivos e simbólicos, praticando uma verdadeira ascese visual e, com é próprio do espírito ascético, reduzindo ao máximo o índice sensualista e ampliando a vivência presencial e fenomenológica, o hic et nunc. Processo que aqui encontraria dificuldades em manter sua rígida ortodoxia, e o caso de Sister é um deles, do mesmo modo que, na mesma linha, certos momentos de Sued e Zilio, aliás com os quais mantém muitas aproximações, pois eles também sofreram do mesmo influxo e resistência. Resistências que atuaram e distinguiram a pintura de cada um deles, o que no caso de Sister foi a insistência numa sensibilização da superfície.

O uso do alumínio é uma “descoberta”. O salto audacioso teria que ser dar justamente nesta superfície antitética à sensibilização, vulgar, metal de 2a categoria. Anódina, impossível de ser saturada e também iludir a profundidade, naturalmente embaçada e também espelhada, a tinta metálica cria uma atmosfera visual única, de tal modo que, salvo engano, há algo na superfície das telas que se compara ao efeito dos novos materiais que a arquitetura atual faz uso. De imediato, recorda, talvez o mais emblemático deles; a cobertura de titânio do Guggenheim de Bilbao de Frank Gehry, e ainda vários outros projetos recentes onde a combinação de novos materiais e novas possibilidades formais voltaram a atrair a atenção para as superfícies arquitetônicas, cada vez mais ativas e visualmente determinantes na totalidade do projeto, quando não são elas essa totalidade mesma.

A materialidade esquiva da tinta alumínio cria uma instabilidade entre o quadro como pintura e como objeto-pintura, da mesma forma como a superfície arquitetônica oscila entre uma autonomia própria e a forma que tudo une. De tal tensão, me parece, derivam os Pontaletes, cujos antecedentes, pensando bem, podem ser os históricos Objetos Ativos de Willys de Castro como também os Sarrafos de Mira Schendel. Mas o diálogo bi/tridimensional-pintura/objeto não se articula por meio de oposições negativo/positivo-figura/fundo, mas através da modulação que, por princípio, significaria dissolução das oposições. Uma serena concentração é a contrapartida que as telas de Sister exigem, porque é delas que emana, como uma luz que ilumina com a luminosidade e brilho amortecidos, e a cor se desaquece com a presença do alumínio, o que dá a uma curiosa sensação visual de quente/frio, o que traduzindo em outros termos, significa a oscilação entre intimidade (quente) e sociabilidade (frio).

Os Pontaletes respondem às pinturas e estas àqueles. Mas eles, Pontaletes, indicam uma experiência que não é mais a da superfície, mas do seu quase abandono. Um dialogo que passa da superfície ao perímetro externo de tal modo que quase podemos supor que cada pontalete tem equivalência nas formas delimitadas na superfície pictórica. Ainda acompanham a determinação da tela mas na sua ausência. Ainda. Para onde vão?

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