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Isobel Whitelegg, Entre Tanto
01/06/2011

Texto para exposição na galeria Nara Roesler

A tarefa de colocar uma obra de arte em palavras é uma resposta a uma atração sentida como algo inexplicável - por que este trabalho, entre tantos, me chama a atenção? Às vezes, o melhor é começar pensando nas razões pelas quais a força da atração deva ser repelida. Como observado por Rodrigo Naves, o fato de Sérgio Sister ser (entre outras coisas) um pintor provoca hesitação. Ele se dedica a uma prática cuja existência dentro da arte contemporânea é tensa. Porém, uma contemporaneidade imperceptível certamente chama a atenção para essas obras, mesmo enquanto pintura. Uma descrição retórica do contemporâneo na arte pode defini-lo como práticas cuja tendência é romper limites distinguindo os seus próprios produtos e atividades de todos os outros objetos ou situações. Porém, não há nada tão moderno como a distinção arte-vida sobre a qual repousa essa definição, e a concessão nela implícita de um projeto para o trabalho artístico. Se fosse tão simples, a contemporaneidade das Caixas, das Ripas e dos Pontaletes de Sister poderia ser rapidamente explicada. Cada um deles é um suporte derivado de estruturas já estabelecidas, de sistemas projetados para atender a outras necessidades. Cada um deles toma sua forma a partir do produto padronizado de cujo nome eles também se apropriam.

As Caixas são, e não são, pequenas caixas abertas; as Ripas são, e não são, ripas de madeira, e os Pontaletes são, e não são, pontaletes. Entre essas três famílias de obras, as Caixas são as que mais guardam memória de sua origem. Permanece uma associação entre a Caixa e os outros usos aos quais essa mesma estrutura é destinada. Cada um se assemelha a um objeto tão familiar que é difícil vê-lo sem ser lembrado de situações nas quais se encontra algo parecido: a mesma estrutura em uso, que carrega e armazena frutas; empilhadas e deixadas na beira de estrada, ou re-utilizadas para guardar qualquer outra coisa. No entanto, aqui, o uso de uma estrutura já estabelecida não é uma validação dessas associações enquanto sinais superficiais da proximidade entre a obra de arte e um objeto da vida cotidiana. A maneira com a qual Sister as emprega não dá ênfase a suas conotações mais imediatas com a rua, com o mercado ou com o lar.

Um despojamento da associação específica é reforçado na relação entre Caixa, Ripa e Pontalete. Ao escrever sobre as Caixas, Sister fez um apanhado de como elas surgiram e de sua relação com as outras duas séries. Ele notou uma pilha de caixas vazias na garagem do prédio onde mora – essas estruturas foram vistas porque apresentavam uma solução a um problema com o qual o artista havia se deparado na prática da pintura. As Caixas foram concebidas em um primeiro momento como obras de ateliê, objetos que foram encontrados e pintados. A pintura de suas tiras verticais foi um experimento que serviu de base para outra série, chamada Ripas, trabalhos que re-configuravam as tiras, transformado-as em ripas de madeira penduradas na parede, lado a lado, em duplas e pintadas com cores próximas à luz branca e à sombra cinza das ripas. Mais tarde, ele percebeu outra estrutura nos arredores de seu prédio: pontaletes utilizados na construção de um edifício para sustentar moldes de lajes de concreto. Sister pintou pontaletes parecidos, apoiando-os, agrupados, em paredes – dispondo-os como “entrosamentos de cores sustentando grandes vazios”. Ele recentemente retornou às Caixas, porém, em vez de pintar a superfície das tiras verticais, ele encomendou a um marceneiro a construção, em duas partes modulares, da estrutura estabelecida para, então, pintá-las e montá-las.

O movimento inicial de Caixa até Ripa é análogo à quebra de um objeto conhecido em partes dotadas de mais generalidade, ou da relativa fixidez de uma frase conhecida em palavras isoladas que juntas detêm o sentido. Enquanto o caixote é um produto específico, ao mesmo tempo em que tem vários usos, a Ripa passa a devolver aquela estrutura ao vocabulário genérico do depósito de madeira. Ripas, pontaletes, tiras e traves são produtos que têm uma poética não-proprietária – “bens intermediários” – produtos incompletos que são absorvidos e quase desaparecem na produção de outros. Um pontalete não tem um fim pré-determinado; ele existe para permitir que a construção aconteça, ele é matéria-prima adaptada como ferramenta para a organização do vazio, utilizada para segurar, delimitar, separar, unir. A razão de o pontalete existir é uma qualidade abstrata, semelhante ao indeterminável propósito da pintura, do desenho e da arquitetura.

O pontalete, ou a ripa do dia a dia, pode ser colocado a serviço da construção de limites para sustentar o peso da gravidade, ou para atender à necessidade de abrigo. Durante a prática de Sister, essas estruturas também são apreendidas como soluções para problemas arquiteturais: como apoiar áreas de cor mantendo uma separação que permita a permanência de um pigmento especialmente potente; como colocar os corpos de cor em contato com o espaço. Enquanto Sister, sendo pintor, mantém-se leal às demandas da cor, as questões às quais Caixinha, Ripa e Pontalete respondem evocam a tarefa primordial da arquitetura: o trabalho humano de utilizar materiais para organizar o vazio; a arte de fazer algo surgir no lugar do nada. Para Lacan, o vazio existente no cerne do exercício arquitetural era homólogo ao “além” que, por sua vez, é relativo a qualquer lei ligada ao serviço humano; um intervalo também praticado na tradição de interromper o trabalho no sétimo dia da semana – o que divide nosso tempo entre a produtividade e a sua suspensão, de acordo com um mandamento divino, com um dado projeto para bem viver. O contemporâneo, no entanto, é um tempo desprovido de regulamentos herdados, é formado por dúvida, hesitação e indecisão, desgovernado pelo movimento certeiro e preciso de qualquer projeção. Nosso tempo é um tempo cujo futuro é sempre recém-planejado e o passado, permanentemente reescrito.

As Caixas agora existem como multiplicidade, oferecendo-nos diversas configurações potenciais: escolhas. Elas podem ser reposicionadas em pares, conjuntos e agrupamentos distintos. A inquieta falta de regras para sua disposição pode ser vivenciada como liberdade – ou talvez mais como ansiedade, defrontando-se com uma desconcertante inabilidade de se colocar a favor de um ou de outro, de se estabelecer, de escolher ou comprometer-se. A tentativa de fixar nosso olhar em apenas um, ou de confirmar a integridade de uma dupla ou grupo, requer uma prática infinita, atendendo à intensa demanda por decisão que sua multiplicidade provoca. É uma experiência aparentada à escolha de uma direção, a orientar-se quando se depara com a falta de fundamento inerente à duração contemporânea. Sister entende seu trabalho como sendo, “no fundo de tudo”, “uma busca por solidariedade com diferenciação e complexidade”. Isso também diz de uma busca por conciliação, pela proteção do compromisso, pela recompensa de arriscar-se a tomar uma decisão irreversível.

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